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Baloeiros e o Cenipa E-mail
Por Miguel Leiva   
16 de maio de 2008

Baloeiros balões de papel e os perigos para aviação

Os registros históricos apontam a China como país inventor do balão, tendo esse fato ocorrido no século XIII. Porém, o primeiro balão de que se tem notícia é do ano de 1306, lançado ao céu chinês para homenagear o Imperador Fo-Kien, por ocasião da sua coroação.
A disseminação para o ocidente deveu-se à viagem da família Pólo, italiana, à China, no ano de 1272. A amizade de Marco Pólo com Kublai Khan, neto de Gengis Khan, proporcionou o aprendizado da arte dos balões. Ao regressarem para a Itália, no ano de 1292, levaram a invenção para o ocidente.

HISTÓRICO SOBRE OS BALÕES NÃO TRIPULADOS

Daí em diante, os balões se popularizaram, especialmente entre os povos de língua latina, principalmente na França, Itália, Espanha, Portugal, México e Brasil.
O balonismo incorporou-se à cultura nacional em 1583, originado dos portugueses e praticado, principalmente, nos meses de maio a agosto, período das festas juninas.
O Brasil é o único país do mundo que desenvolveu técnica aprimorada nesta arte. No início eram pequenos, chamados de chinesinhos, em homenagem aos seus inventores. No decorrer dos anos, com o uso da tecnologia, foram atingindo proporções gigantescas.
Os dois maiores balões de ar quente não tripulados de que se têm notícias no mundo são brasileiros, soltos no Rio de janeiro. O mais alto, com 54 metros de altura, o Pantanal, assim chamado porque levava uma bandeira de 60 metros de largura e 90 de altura, em homenagem à fauna e à flora do Mato Grosso do Sul, foi lançado aos céus em maio de 1990. Quatro anos depois, a Sociedade dos Amigos do Balão soltou um balão modelo estrela, com 28 metros de altura e 54 de diâmetro.
Recentemente, em 2000, também no Rio de janeiro, a polícia apreendeu o maior balão não fabricado  no mundo, com 65 metros de altura, semipronto, equivalente a um prédio de 22 andares.
É uma prática muito atrativa, porém ameaça seriamente a atividade aérea. Pássaros, que são mais leves, menores e não explodem, já derrubaram aeronaves de todos os portes, inclusive um Boeing 737 (Etiópia, 1988) e um 707 (Alasca, 1995).
Por colocar em risco milhares de vidas que sobrevoam diariamente os grandes centros urbanos, o balonismo é considerado um problema social, devendo ser combatido e, para que isso ocorra, o conhecimento do problema é imprescindível.

CONHECENDO O PROBLEMA

Os baloeiros são organizados em turmas. Atualmente, são cerca de 1000 na Grande São Paulo e outras 1000 no Rio de Janeiro, cada uma tendo, em média, 25 integrantes. As duas cidades são responsáveis por 60% do total de balões soltos. Em terceiro lugar, mas crescendo muito nos últimos anos, está o Paraná, com 15%. Os 25% restantes estão distribuídos pelos outros estados. A Sociedade dos Amigos do Balão estima em 100 mil balões soltos anualmente pelas turmas no Brasil.
Caso essa prática se resumisse à inocente imagem de um balão subindo, tudo bem. Ocorre que a mesma representa uma séria ameaça para a atividade aeronáutica, tendo, no período de 16.03.1993 a 10.08.1999, provocado 07 incidentes envolvendo aeronaves (vide anexo 01).
Em 1998, foram recolhidos 118 balões no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, e 40 no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro. Um desses, em 31.05.98, caiu sobre asa de um BOEING 737 da AMERICAN AIRLINES, em Guarulhos, tendo incendiado e causado danos leves à aeronave.
Além disso, vários balões ocupam o espaço aéreo das áreas terminais. Não é possível detectar o mesmo no radar de bordo, tampouco no TCAS. Ocorrendo o mesmo com os radares de controle de tráfego, que não detectam o artefato devido ao insuficiente eco radar.
O alcance dos balões está cada dia maior. Já foram avistados a 15.000 pés de altitude. O emprego de buchas acionadas em seqüência aumenta a autonomia, eles permanecem mais tempo no ar. Apresentam dimensões cada vez maiores, ultrapassando 40 metros de altura e peso superior a 100 quilos. A tecnologia empregada utiliza bujões de gás, baterias de automóveis, dentre outros materiais de alta resistência e peso.
E o problema maior ocorre pelo fato de os mesmos não serem tripuláveis, ocupando o espaço aéreo aleatoriamente. Em 08.02.1999, a tripulação  de um avião da RIOSUL, com 51 passageiros a bordo, experimentou uma desagradável experiência: próximo à Guarulhos-SP, ao cruzar 4500 pés de altitude (+/- 1400 metros), em descida, avistaram um balão de cerca de 10 andares de altura, em rota de colisão, tendo o comandante desviado e passado bem próximo do mesmo.
Por intermédio de uma fórmula um pouco complicada, tem-se uma idéia do que representaria o impacto descrito na situação apresentada no parágrafo anterior. Uma aeronave em descida, com 250 nós, ao colidir com um balão de 150 quilos, receberia um impacto de 208 toneladas, ou seja, equivalente à metade de um Boeing 747. Além disso, há a capacidade explosiva dos fogos de artifício e dos bujões de gás, podendo gerar um prejuízo incalculável. Se o piloto estivesse em condições IFR, certamente haveria uma colisão e a tragédia seria inevitável.
Percebe-se claramente o risco que essa prática representa para a atividade aérea, tendo o CENIPA adotado várias medidas de prevenção ao longo dos anos.

MEDIDAS DE PREVENÇÃO

Em 23.06.1992, o CENIPA recebeu uma correspondência das companhias aéreas informando a preocupação com a alta incidência de balões nas zonas de controle de tráfego aéreo. Essa carta deu origem à 1ª Reunião de Grupo de Trabalho referente aos perigos decorrentes do balonismo, realizada em 10.12.1992.
Daí em diante, várias medidas vêm sendo tomadas pelos órgãos: CENIPA, Departamento de Aviação Civil, Empresa de Infra-estrutura Aeroportuária, Diretoria de Eletrônica e Proteção ao Vôo, Secretarias de Segurança Públicas do Rio de Janeiro e de São Paulo, Sindicato Nacional de Empresas Aéreas, Serviços Regionais de Proteção ao Vôo e Ministério da Educação, visando minimizar o problema:
divulgação de matérias na mídia;
divulgação da Lei nº 9.605, em 13.02.1998, definindo essa prática como crime;
implantação do DISQUE-DENÚNCIA de balões (021 - 2253-1177), em 1999, com o oferecimento de recompensa de R$ 300,00 à R$ 1000,00 aos denunciantes;
divulgação de cartazes;
campanhas nas Escolas do rio de Janeiro e de São Paulo;
divulgação na Internet; e
alerta aos pilotos através do ATIS;
Com essas medidas e, principalmente, após a promulgação da Lei 9.605 e a implantação do DISQUE-DENÚNCIA, o número de incidência caiu e se mantém estável, mas ainda é preocupante. Só no mês de julho de 2001, em São Paulo, foram registrados 80 casos de pilotos que avistaram balões próximos à Guarulhos, sendo que cinco tiveram que desviar.

POSSÍVEL SOLUÇÃO

Como se trata de uma prática valorizada na cultura brasileira, a única forma de combatê-la, com eficácia, é através de investimentos na reeducação infantil.
As experiências sociais ocorridas na infância influenciam muito mais do que as ocorridas na adolescência e na idade adulta. É na infância que se forma o alicerce básico sobre o qual se assentam as experiências da adolescência, formando a base onde as vivências adultas se estruturam. Os comportamentos atuais de um indivíduo nada mais são do que o somatório de um conjunto de situações vividas por anos e anos, marcando e formando, assim, a sua personalidade.
Uma criança que cresce presenciando essa prática de soltura de balões, com seus familiares participando, direta ou indiretamente, tende a ser um futuro baloeiro, contribuindo para perpetuar essa atividade.
A faixa etária ideal para educar uma criança é dos três aos dez anos. Acima disso, o jovem entra na pré-adolescência, acreditando que sabe tudo da vida, criticando os adultos quando contrariado, não constituindo, portanto, uma faixa ideal para apresentação do problema. Abaixo dos dez anos, as informações passadas e as experiências vividas formam o alicerce básico da personalidade e este, uma vez formado, torna-se de difícil modificação.
Desta forma, é necessário investir em campanhas escolares, com ações pedagógicas específicas direcionadas às crianças na faixa supracitada, reeducando-as, formando uma nova mentalidade na população brasileira. Agindo assim, milhares de vidas deixarão de correr risco a bordo de uma aeronave no espaço aéreo brasileiro.

Esse documento foi retidado do CENIPA Centro de  investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos em  (http://www.cenipa.aer.mil.br/paginas/sdv/hbalao.htm) a alguns anos e desde então parece não estar mais disponiel na internet.

 
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